O dicionário digital de línguas indígenas voltou a ganhar destaque ao integrar a Década Internacional das Línguas Indígenas, iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicada à valorização e preservação dos idiomas tradicionais em todo o mundo. A ferramenta representa um importante avanço na proteção do patrimônio cultural brasileiro ao facilitar o aprendizado e a transmissão desses conhecimentos entre diferentes gerações.
Desenvolvido pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), o projeto reúne atualmente sete dicionários bilíngues, enquanto outros quatro estão em fase de desenvolvimento. O material pode ser acessado por celulares, tablets e computadores, inclusive sem conexão com a internet, ampliando o alcance às comunidades indígenas da Amazônia.
Mais do que um repositório de palavras, a plataforma reúne textos, fotografias, vídeos e gravações da pronúncia original dos termos, permitindo que estudantes e pesquisadores conheçam não apenas a escrita, mas também os sons e as expressões próprias de cada idioma.
O diferencial da iniciativa está na participação ativa dos povos indígenas em todas as etapas do processo. Lideranças, professores e falantes colaboram na seleção das palavras, na gravação dos áudios e na validação dos conteúdos, garantindo que cada dicionário represente fielmente a realidade linguística e cultural de sua comunidade.
A preservação das línguas também significa proteger conhecimentos tradicionais acumulados ao longo de séculos. Cada palavra registrada carrega informações sobre a história dos povos, seus territórios, formas de organização social e saberes relacionados à natureza e ao uso de plantas medicinais.
Estudos citados pelo projeto apontam que mais de 75% dos 12.495 registros sobre o uso medicinal de plantas em regiões de alta diversidade biocultural estão associados a apenas uma língua. Isso reforça a importância da preservação dos idiomas para evitar a perda de conhecimentos únicos.
No Brasil, a Amazônia concentra cerca de dois terços das aproximadamente 150 a 170 línguas indígenas ainda faladas. Já o Censo Demográfico de 2022 identificou 295 línguas indígenas autoidentificadas, incluindo idiomas em processo de retomada e outros preservados como memória cultural.
Outro destaque é o uso de tecnologias de código aberto, que permitem adaptar a plataforma para novas comunidades e ampliar o projeto para outros idiomas ameaçados. Em regiões onde existem poucos falantes fluentes, o material contribui para processos de revitalização linguística. Já onde a língua permanece viva, torna-se um importante apoio às atividades educacionais desenvolvidas pelas próprias comunidades.
O reconhecimento também veio em nível nacional. Os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas foram premiados pela Fundação Banco do Brasil como uma tecnologia social reaplicável, destacando seu impacto na preservação cultural e na inclusão digital.
Para a pesquisadora indígena Dona Margarida Macurap, uma das participantes do projeto, ouvir sua própria voz registrada no aplicativo foi emocionante. Ela acredita que a ferramenta deixará um legado para filhos, netos e bisnetos, permitindo que a língua tradicional continue sendo aprendida e preservada por meio da tecnologia.
Ao unir inovação, participação comunitária e valorização da cultura dos povos originários, o dicionário digital demonstra como a tecnologia pode ser uma aliada na preservação da diversidade linguística e da memória cultural brasileira.






