A história de Bruno Drummond de Freitas, de 31 anos, voltou a chamar atenção para uma pesquisa brasileira que pode representar uma nova esperança para pessoas com lesões na medula espinhal. Tetraplégico desde os 23 anos após um grave acidente de carro, Bruno recuperou progressivamente os movimentos depois de receber a polilaminina, substância experimental desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Hoje, ele consegue andar, trabalhar e praticar exercícios e usa a própria experiência para pedir que os estudos científicos avancem.
Em um vídeo publicado recentemente, Bruno fez um desabafo sobre a demora para o início do estudo clínico de fase 1 da polilaminina e chamou a atenção para as novas regras para o uso compassivo da substância. “Se meu acidente acontecesse hoje, eu ficaria de fora”, afirmou. Segundo ele, a preocupação é que pessoas que sofrerem determinados tipos de lesão medular não tenham a mesma oportunidade que ele teve no passado.
Bruno sofreu o acidente em 2018, durante uma viagem entre São Paulo e Teresópolis, no Rio de Janeiro. Ele dormia no banco traseiro do carro da família quando o veículo capotou. O trauma provocou uma grave lesão cervical e deixou o jovem sem movimentos nos braços e nas pernas. Menos de 24 horas depois, ele recebeu a polilaminina experimental e começou, posteriormente, a apresentar uma recuperação progressiva. O caso se tornou um dos mais expressivos entre os participantes do primeiro estudo piloto realizado em seres humanos.
“Eu tive a oportunidade de voltar a ser uma pessoa ativa, independente”, contou Bruno durante uma audiência no Senado. Oito anos depois do acidente, ele transformou a própria trajetória em uma forma de defender que a pesquisa continue avançando e possa, no futuro, beneficiar um número maior de pessoas.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em 5 de janeiro de 2026, o estudo clínico de fase 1 da polilaminina. A pesquisa prevê a participação de cinco pacientes adultos, entre 18 e 70 anos, com lesões agudas e completas da medula torácica, entre as vértebras T2 e T10, que tenham indicação cirúrgica e possam receber a substância em até 72 horas após o trauma. O objetivo inicial é avaliar a segurança do tratamento experimental.
A demora para o início da inclusão de participantes, porém, deixou Bruno frustrado. “Estamos quase em setembro e até agora nenhum paciente foi captado”, afirmou. No registro público do estudo no ClinicalTrials.gov, a pesquisa aparece com o status “ainda não recrutando”, informação que havia sido atualizada pela última vez em fevereiro.
Apesar da cobrança, Bruno faz questão de ressaltar que não defende que a polilaminina seja liberada para a população sem que os estudos necessários sejam realizados. Para ele, o caminho é justamente acelerar a pesquisa científica de forma responsável. “O estudo precisa acontecer. É ele que vai trazer a comprovação, é ele que vai permitir que um dia isso chegue a todo mundo do jeito certo”, declarou. E resumiu seu apelo: “Não é para atrasar, é para avançar.”
A pesquisa ganhou recentemente um novo capítulo importante. Em 4 de agosto de 2026, foi publicado na revista científica Spinal Cord, do grupo Nature, o primeiro estudo piloto revisado por pares sobre o tratamento. O trabalho acompanhou oito pacientes com lesões traumáticas completas da medula que receberam uma aplicação intramedular de polilaminina. Entre os pacientes que sobreviveram e puderam ser acompanhados, foram observadas recuperações neurológicas, e Bruno apresentou uma das evoluções funcionais mais expressivas.
Os próprios pesquisadores, porém, ressaltam que os resultados ainda precisam ser interpretados com cautela. O estudo foi pequeno e não contou com um grupo de controle, portanto ainda não é possível afirmar cientificamente que a polilaminina foi responsável pelas recuperações observadas. Melhoras espontâneas também não podem ser completamente descartadas. Por isso, os próximos estudos são fundamentais para determinar a segurança e, posteriormente, a eficácia da substância.
A trajetória da polilaminina começou há quase três décadas, com as pesquisas da cientista Tatiana Coelho de Sampaio e sua equipe na UFRJ. A substância é produzida a partir da laminina, uma proteína naturalmente encontrada no organismo, e pesquisas realizadas em laboratório e em animais indicaram potencial para favorecer processos relacionados à regeneração do tecido nervoso. O desenvolvimento passou posteriormente a contar com a participação do laboratório brasileiro Cristália, responsável pelo produto que agora avança na etapa regulatória dos estudos clínicos.
Se a primeira fase apresentar resultados satisfatórios de segurança, a pesquisa poderá avançar para estudos maiores, que serão necessários para avaliar de maneira mais consistente a eficácia do tratamento. Até lá, a polilaminina continua sendo uma terapia experimental e não deve ser considerada uma cura comprovada para lesões da medula.




