Mais de 40 substâncias estão em estudo para combater a perda de massa muscular; pesquisas investigam novas alternativas para preservar força, mobilidade e independência na terceira idade
A ciência está avançando na busca por novas estratégias para preservar a saúde muscular ao longo do envelhecimento. Mais de 40 substâncias estão atualmente em estudo com o objetivo de desenvolver medicamentos capazes de preservar ou recuperar a massa muscular perdida com a idade, em uma frente de pesquisa que pode abrir novas possibilidades de tratamento para a sarcopenia.
As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo, que acompanha o desenvolvimento de medicamentos que vêm sendo chamados informalmente de “canetas para músculos”. Diferentemente dos anabolizantes, as substâncias investigadas atuam sobre mecanismos biológicos relacionados ao crescimento e à manutenção do tecido muscular.
Entre os candidatos em estágios mais avançados estão o bimagrumab, da Eli Lilly, e o trevogrumab, da Regeneron. Os pesquisadores estudam como essas substâncias podem ajudar a preservar a massa muscular, inclusive em situações de perda de peso.
“Temos uma sociedade que envelhece e precisa se manter saudável, ativa e independente. Preservar os músculos é essencial”, explicou Felipe Henning Gaia, chefe do Serviço de Endocrinologia Oncológica do A.C.Camargo Cancer Center e presidente da regional paulista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, ao O Globo.
Pesquisas miram o “freio” natural dos músculos
Uma das principais linhas de pesquisa envolve a miostatina, proteína produzida naturalmente pelo organismo que funciona como uma espécie de regulador do crescimento muscular.
Parte dos medicamentos em desenvolvimento busca bloquear mecanismos que limitam o aumento ou a manutenção do tecido muscular. O objetivo é entender se essa estratégia pode contribuir para preservar a massa magra e, principalmente, melhorar a capacidade funcional dos pacientes.
O trevogrumab, por exemplo, é um anticorpo desenvolvido para bloquear a ação da miostatina. Em um estudo de fase 2 com pessoas com obesidade, a substância foi avaliada em combinação com semaglutida, princípio ativo de medicamentos utilizados para emagrecimento.
Após 26 semanas, segundo dados divulgados pela Regeneron, a combinação evitou aproximadamente metade da perda de massa magra observada entre participantes que utilizaram apenas semaglutida.
Os resultados são considerados promissores, mas ainda preliminares e precisam ser confirmados em estudos maiores e em diferentes grupos de pacientes.
Bimagrumab também é estudado durante o emagrecimento
O bimagrumab é outra substância que vem sendo investigada como possível estratégia para preservar ou aumentar a massa muscular durante processos de perda de peso.
Um estudo clínico de fase 2 patrocinado pela Eli Lilly reuniu 507 adultos com sobrepeso ou obesidade e avaliou diferentes combinações de bimagrumab e semaglutida. A pesquisa analisou, entre outros aspectos, alterações na quantidade de gordura e de massa magra dos participantes.
Outra investigação, conduzida pelo Massachusetts General Hospital, avalia o uso do bimagrumab associado à tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. A proposta é verificar se a combinação pode contribuir para uma redução de peso que preserve melhor músculos e ossos.
Preservar músculos é importante para envelhecer com autonomia
A busca por novas terapias ganha relevância diante do envelhecimento da população e do impacto da sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa, força e função muscular.
A redução da musculatura pode afetar a mobilidade e a autonomia e aumentar a vulnerabilidade a quedas e situações de fragilidade. Por isso, manter a saúde dos músculos é considerado um dos elementos importantes para um envelhecimento mais ativo e independente.
O tema também ganhou destaque com a popularização dos medicamentos para emagrecimento. Embora essas terapias contribuam principalmente para a redução de gordura corporal, parte do peso perdido pode corresponder à massa magra.
Nesse cenário, pesquisadores investigam formas de tornar o processo de emagrecimento mais favorável à preservação muscular.
Medicamentos ainda não estão disponíveis
Apesar do apelido de “canetas para músculos”, ainda não existe um medicamento desse tipo aprovado e disponível nas farmácias para combater a perda muscular relacionada ao envelhecimento.
As substâncias permanecem em diferentes etapas de pesquisa clínica. Muitas são administradas por injeção nos estudos, mas o formato definitivo de um eventual medicamento dependerá dos resultados das pesquisas, da definição das doses e das avaliações das autoridades reguladoras.
Os especialistas também fazem uma distinção importante: aumentar a quantidade de massa muscular não significa necessariamente aumentar a força ou melhorar a capacidade de realizar atividades do dia a dia.
Alguns candidatos anteriores chegaram a produzir aumento de massa magra, mas tiveram seu desenvolvimento interrompido por não demonstrarem benefícios funcionais suficientes ou por apresentarem efeitos adversos.
Exercício continua sendo essencial
Mesmo diante dos avanços científicos, os pesquisadores não consideram que medicamentos possam substituir a atividade física.
O endocrinologista Clayton Macedo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reforçou ao O Globo que essas terapias não devem ser vistas como uma solução isolada para o ganho muscular.
“Não são para ganho extra de massa muscular. Não serão uma bala de prata”, afirmou.
Os próximos estudos serão fundamentais para descobrir se as novas substâncias conseguem não apenas preservar músculos, mas também transformar esse resultado em mais força, mobilidade e segurança para os pacientes.




