“Entre a Caneta e o Poder” foi premiado na categoria Documentário Mostra Brasil, durante a 8ª edição do FestCine Pedra Azul
O documentário baiano “Entre a Caneta e o Poder: Mulheres no Jornalismo da Bahia”, dirigido por Daniel Talento, conquistou o Troféu Rota do Lagarto, na categoria Documentário Mostra Brasil, durante a 8ª edição do FestCine Pedra Azul, no Espírito Santo.
A premiação ocorreu após a exibição do filme, que terminou com o público aplaudindo de pé. Realizadores, artistas e profissionais do audiovisual presentes no festival também cumprimentaram as jornalistas retratadas na produção. Para parte dos espectadores, a sessão foi marcada pela emoção e por relatos de identificação com as histórias apresentadas.
Realizado nos dias 25 e 26 de setembro, no Hotel Vista Azul, em Pedra Azul, distrito de Domingos Martins, o festival reuniu produções brasileiras e estrangeiras. Segundo a organização, 1.580 filmes de 98 países foram inscritos nesta edição, que também homenageou as atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes.
Memória do jornalismo baiano
Produzido pela Tia Maria Filmes, em coprodução com a Arpoador Audiovisual, o documentário resgata a trajetória de mulheres que conquistaram espaço nas redações baianas a partir da década de 1970.
Em um período marcado pela ditadura militar e pela censura à imprensa, essas profissionais também precisaram enfrentar barreiras relacionadas à presença feminina em áreas tradicionalmente ocupadas por homens. Política, polícia, economia e esporte estavam entre os setores nos quais essas jornalistas passaram a atuar.
A produção reúne depoimentos de Carmela Talento, Mariluce Moura, Joana D’Arck, Isabel Santos, Mônica Bichara e Jaciara Santos. As experiências individuais ajudam a reconstruir um período de transformação no jornalismo baiano e mostram como essas profissionais avançaram em espaços de prestígio, decisão e influência dentro das redações.
Para o diretor Daniel Talento, a premiação representa a ampliação do alcance dessa memória.
“É saber que a história dessas mulheres baianas, jornalistas incríveis, que bateram de frente com o machismo das redações e com a violência da ditadura, está furando a bolha”, afirma. Segundo ele, o reconhecimento também contribui para levar a trajetória dessas profissionais a públicos que não tiveram contato direto com essa história.
Uma história que também atravessa gerações
A relação de Daniel Talento com o tema é pessoal. Uma das protagonistas do documentário é sua mãe, Carmela Talento, cuja trajetória já fazia parte da memória familiar do diretor.
O trabalho também dialoga com o livro “As comadres estão chegando”, do jornalista e escritor Emiliano José, que recupera histórias de mulheres que conquistaram espaço nas redações baianas. O autor participa do documentário.
Carmela conta que inicialmente resistiu ao convite para conceder o depoimento ao filho. A leitura do livro, no entanto, ajudou a convencê-la a participar do projeto.
“Foi o que ele estava precisando para me convencer. Não teve jeito: falei. Pouco, mas falei”, relembra.
Para ela, o resultado é marcado pela sensibilidade e pela fidelidade às histórias das jornalistas retratadas.
Emiliano José também destaca a importância da produção para preservar a memória dessas profissionais. Segundo o escritor, as personagens são “jornalistas extraordinárias, excelentes profissionais e testemunhas de um tempo”.
Protagonistas acompanharam a premiação
Quatro das seis jornalistas retratadas no documentário — Joana D’Arck, Isabel Santos, Mônica Bichara e Jaciara Santos — estiveram em Pedra Azul para acompanhar a exibição e a cerimônia de premiação. A produtora executiva Karen Zardi também participou do festival, representando o diretor.
Carmela Talento e Mariluce Moura não puderam estar presentes. Mariluce, que vive em São Paulo há quase quatro décadas, recebeu a notícia da premiação à distância.
Ao recordar sua participação no filme, ela relembra o momento em que Daniel chegou ao seu apartamento acompanhado de equipamentos de gravação e a convidou a revisitar suas memórias profissionais.
“Eu ainda sonolenta, me pôs a falar — não me deixou escapar!”, brinca.
Segundo Mariluce, algumas lembranças resgatadas durante as gravações eram difíceis, mas a experiência terminou sendo uma oportunidade importante de revisitar sua própria trajetória.
Reconhecimento além do Brasil
O prêmio conquistado no Espírito Santo amplia uma trajetória que já ultrapassou as fronteiras brasileiras.
Em maio deste ano, “Entre a Caneta e o Poder” foi selecionado para o ICJ International Film Award 2026, na Ucrânia, entre mais de 2.500 produções de diferentes países. O filme também passou a integrar o programa Cinema nas Escolas, que prevê exibições em cem instituições de ensino ucranianas.
No Brasil, a produção foi selecionada para o Panorama Estadual da 9ª Mostra Sesc de Cinema, representando a Bahia.
A passagem pelo FestCine Pedra Azul acrescenta agora mais um reconhecimento ao documentário. Para a equipe, a reação do público teve um significado especial justamente por acontecer diante de espectadores que, em sua maioria, não conheciam as jornalistas nem tinham relação direta com a história da imprensa baiana.
A trajetória de mulheres que ajudaram a transformar as redações da Bahia ganhou, assim, novos espectadores e chegou ao palco de uma premiação nacional.
