Um novo exame de sangue que busca sinais associados a mais de 50 tipos de câncer chegou ao Brasil e amplia as possibilidades de investigação precoce da doença. O Galleri, desenvolvido pela empresa norte-americana Grail, utiliza uma única amostra de sangue para procurar alterações no DNA que podem estar relacionadas à presença de células cancerígenas, inclusive em tumores que atualmente não contam com programas de rastreamento de rotina.
O teste passou a ser oferecido pelo Einstein Hospital Israelita e pelo Grupo Fleury, por meio da Genesis Genomics, parceria entre as duas instituições. Neste primeiro momento, o exame está disponível apenas de forma particular, tem custo de R$ 6.990 e precisa de solicitação médica. A chegada da tecnologia representa mais uma alternativa para ampliar as ferramentas disponíveis na medicina, especialmente na busca por sinais de tumores antes do aparecimento de sintomas.
“Quanto mais cedo um tumor é identificado, maiores tendem a ser as chances de tratamento, controle e até cura da doença, por isso a biópsia líquida para detecção precoce é tão promissora”, explicou Nam Jin Kim, diretor médico de Oncologia e Hematologia do Einstein.
O Galleri é um teste de detecção precoce multicâncer. Em vez de procurar apenas um tipo específico da doença, ele analisa fragmentos de DNA que circulam no sangue em busca de padrões de metilação associados às células cancerígenas. Quando identifica um sinal suspeito, a tecnologia também tenta apontar a provável região do organismo onde ele se originou. Entre os tipos de câncer que podem apresentar sinais identificáveis estão os de pâncreas, fígado, ovário, estômago, cabeça e pescoço, além de linfomas e mielomas.
A novidade chama atenção principalmente pela possibilidade de auxiliar na investigação de tumores que ainda não possuem exames de rastreamento de rotina para pessoas sem sintomas. Inicialmente, o Galleri poderá ser indicado principalmente a pessoas com mais de 50 anos e sem sintomas, sempre após avaliação médica. Pessoas que já tiveram câncer também podem realizar o teste em determinadas condições, desde que estejam em remissão completa e sem sinais de atividade da doença há mais de três anos. O exame não é indicado para menores de 22 anos, gestantes, pessoas em tratamento ativo contra o câncer ou pacientes que já estejam passando por investigação de um possível tumor.
Apesar do potencial da tecnologia, o novo exame de sangue não substitui os métodos de rastreamento já recomendados. Exames como mamografia, colonoscopia e outros procedimentos preventivos continuam sendo importantes e devem ser realizados conforme a orientação médica. “Um ponto que eu acho importante a gente enfatizar é que a gente não vai deixar de fazer a mamografia, colonoscopia, mas para aqueles casos que você não tem o rastreamento, ele tem um valor”, afirmou Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury.
O Galleri também não fornece sozinho um diagnóstico definitivo de câncer. Quando o teste identifica um sinal associado à doença, o paciente precisa realizar outros exames para confirmar ou descartar a presença de um tumor. Da mesma forma, um resultado negativo não significa que a pessoa certamente não tenha câncer ou que não possa desenvolver a doença posteriormente.
Estudos realizados com a tecnologia mostram uma taxa baixa de falsos positivos, embora a capacidade de identificar a doença varie conforme o tipo e o estágio do câncer. No estudo PATHFINDER 2, realizado na América do Norte, a especificidade chegou a 99,85%. Já a sensibilidade, que mede a capacidade de encontrar os cânceres realmente existentes, foi de 35% considerando os casos diagnosticados durante um período de 12 meses. A capacidade de identificação aumentou conforme o estágio da doença, passando de 21,4% para tumores em estágio I para 63,2% no estágio IV.
Outro grande estudo, realizado com mais de 142 mil participantes na Inglaterra e publicado no New England Journal of Medicine, avaliou se o rastreamento com o teste poderia reduzir os diagnósticos de determinados cânceres nos estágios III e IV. Após três rodadas de rastreamento, os pesquisadores não encontraram redução estatisticamente significativa na incidência conjunta desses cânceres, principal objetivo da pesquisa. Os autores ressaltaram, porém, que um acompanhamento mais longo ainda é necessário. Também ainda não existem evidências conclusivas de que o uso do Galleri reduza a mortalidade por câncer.
Comercializado nos Estados Unidos desde 2021, o exame agora começa a ser disponibilizado no mercado brasileiro. A operação no país é coordenada pela Genesis Genomics, parceria do Einstein com o Grupo Fleury, e a expectativa é que, após o início nas unidades das instituições, a disponibilidade possa ser ampliada por meio da rede de laboratórios parceiros.
Para os médicos, a chegada da tecnologia abre uma nova possibilidade principalmente para tumores que hoje não contam com métodos estabelecidos de rastreamento em pessoas sem sintomas. Embora ainda sejam necessários estudos para avaliar plenamente o impacto da ferramenta na saúde da população, a novidade representa mais um avanço na busca por formas de identificar doenças cada vez mais cedo e ampliar as possibilidades de cuidado. A orientação é que o Galleri seja utilizado como uma ferramenta complementar, com indicação e acompanhamento de um profissional de saúde.

