Pesquisas sobre o microquimerismo materno revelam uma conexão surpreendente entre mães e filhos que pode continuar muito depois da gestação
A ciência encontrou mais uma evidência de que o vínculo entre mãe e filho começa muito antes do nascimento e pode deixar marcas no organismo por décadas.
Durante a gravidez, células maternas atravessam a placenta e chegam ao corpo do bebê. Algumas delas permanecem no organismo da criança mesmo depois do nascimento e podem ser encontradas muitos anos mais tarde. O fenômeno é conhecido como microquimerismo materno e vem despertando cada vez mais interesse entre os pesquisadores.
Duas revisões científicas recentes voltaram a chamar atenção para o tema. Uma foi publicada em 9 de setembro de 2026 na revista Clinical Science. A outra, publicada em 31 de agosto no American Journal of Reproductive Immunology, reuniu especialmente estudos sobre a presença dessas células no cérebro.
Uma conexão que pode durar décadas
A troca de células durante a gestação acontece nos dois sentidos. Assim como células da mãe podem chegar ao bebê, células fetais também podem passar para o organismo materno.
No caso das células maternas, algumas conseguem permanecer no corpo dos filhos por muitos anos. Um estudo publicado em 1999 no Journal of Clinical Investigation já havia identificado material celular de origem materna em pessoas adultas, incluindo participantes de até 49 anos.
A descoberta abriu caminho para uma série de pesquisas que tentam compreender melhor o papel dessas células no organismo humano.
Células maternas também chegam ao cérebro
O cérebro é uma das regiões que mais despertam curiosidade científica.
Pesquisadores já identificaram células consideradas de origem materna em amostras do cérebro de homens adultos, inclusive em pessoas sem esclerose múltipla. Algumas dessas células apresentavam características semelhantes às de neurônios, enquanto outras tinham características relacionadas ao sistema imunológico.
A revisão publicada em agosto de 2026 reuniu evidências sobre esse fenômeno e reforçou uma questão que ainda intriga os cientistas: o que exatamente essas células fazem depois que chegam ao cérebro?
A resposta ainda está sendo investigada.
Uma possível participação na defesa do organismo
O sistema imunológico também está no centro das pesquisas.
A revisão publicada recentemente na Clinical Science aponta que as células maternas podem participar de processos relacionados à maturação do sistema imunológico dos filhos e à resposta do organismo a infecções.
Os pesquisadores também investigam possíveis associações entre o microquimerismo e doenças inflamatórias e autoimunes. Isso significa que ainda não é possível dizer que essas células sejam sempre benéficas ou prejudiciais. Seus efeitos podem depender do tecido em que estão presentes, da idade e de outras características individuais.
Uma descoberta que reforça a complexidade da maternidade
Embora o microquimerismo materno seja conhecido pela ciência há décadas, cada nova pesquisa ajuda a ampliar a compreensão sobre uma conexão biológica iniciada durante a gestação.
E existe um detalhe importante: não é correto dizer que as células da mãe permanecem necessariamente no filho “para sempre”. O que as pesquisas mostram é que pequenas populações de células maternas podem sobreviver por muitos anos e chegar à vida adulta.
Ainda há muitas perguntas sem resposta. Mas uma coisa já está clara: a gestação envolve uma troca celular muito mais profunda do que se imaginava, deixando no organismo dos filhos uma espécie de registro biológico daquela primeira conexão com a mãe.




