Um gesto de carinho, uma brincadeira e a presença de um animal podem tornar mais leve a rotina de crianças que precisam passar dias no hospital. Na Maternidade e Hospital da Criança Deputado Alan Sanches, no bairro da Federação, em Salvador, a golden retriever Diana, de 3 anos, e o border collie Lútche ajudam a transformar o ambiente hospitalar em um espaço de acolhimento, interação e alegria por meio de visitas que aproximam os pequenos pacientes do universo dos animais.
Os dois cães integram o Projeto Caralâmpia, iniciativa que promove atividades assistidas por animais com pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde. Realizadas periodicamente na área de internamento infantil da unidade municipal, as visitas são planejadas para proporcionar momentos de descontração, estimular a interação e contribuir para o bem-estar das crianças durante o período de hospitalização.
Por trás da tranquilidade e do carinho demonstrados pelos animais existe um trabalho cuidadoso de preparação. Diana começou a ser treinada ainda filhote, após ser selecionada em um canil que realiza avaliações de temperamento e saúde. Aos 75 dias de vida, ela chegou à casa de sua tutora, Maria Luiza, e iniciou um processo de habituação, dessensibilização e treinamento específico para serviços assistidos por animais, com técnicas de adestramento positivo e acompanhamento de profissionais especializados em comportamento animal.
Ao completar 2 anos, Diana foi aprovada no Teste do Cão Sociável, avaliação composta por sete etapas e conduzida por uma juíza designada pela Confederação Brasileira de Cinofilia e pela Confederação Nacional de Adestramento. A certificação autorizou sua participação nas atividades do projeto. Lútche também passou pelo mesmo processo de preparação e recebeu a certificação necessária para acompanhar as visitas.
Segundo Kíssia Minelli, psicóloga do Serviço Assistido por Cães (SAAT), cada encontro é uma oportunidade de criar experiências positivas em meio à rotina hospitalar. A presença dos animais pode despertar o interesse de crianças que, devido ao tempo prolongado de internação, demonstram pouca disposição para sair do leito ou participar de outras atividades propostas pela equipe de saúde.
A gerente médica da maternidade, Sara Teixeira, destaca que a participação dos pacientes é definida de maneira individualizada, levando em consideração as condições clínicas, o interesse da criança e a segurança da atividade. A equipe médica e os profissionais responsáveis avaliam cada situação antes de autorizar o contato com os cães.
Entre as histórias que marcam o projeto está a de uma criança que costumava permanecer no quarto e aceitou sair para passear pelo corredor na companhia de Diana. Em outra ocasião, Kíssia presenciou a emoção de uma mãe ao perceber que a filha com paralisia cerebral estava sendo estimulada pela presença dos animais. São momentos que mostram como uma interação simples pode abrir espaço para novas experiências, fortalecer vínculos e trazer conforto às famílias.
“Cada história que conhecemos na realização deste trabalho é única e marcante”, relata a psicóloga. Segundo ela, a equipe observa mudanças de humor e maior interação durante as atividades. Os cães também podem facilitar a aproximação entre os profissionais de saúde e os pacientes, contribuindo para que as crianças se sintam mais à vontade para participar das propostas de cuidado.
Para garantir a segurança de todos, os animais passam por avaliações veterinárias e seguem protocolos sanitários rigorosos, com vacinação, vermifugação e controle de parasitas atualizados. Antes das visitas, recebem banho com xampu à base de clorexidina, produto indicado para uso animal. A participação é permitida nos quartos de internação infantil que não sejam destinados a isolamento, além de áreas comuns, recepção e setores frequentados pelos funcionários. A entrada nas unidades de terapia intensiva (UTIs) não é autorizada, e crianças em isolamento de contato ou com condições clínicas incompatíveis com a atividade não recebem os animais.
O cuidado também contempla o bem-estar de Diana, Lútche e dos demais cães envolvidos no projeto. De acordo com Kíssia, a carga de trabalho é limitada a três horas semanais, com no máximo uma hora de atividade por dia. Fora do hospital, os animais mantêm uma rotina de passeios, brincadeiras, enriquecimento ambiental, contato com a natureza e momentos de lazer.
A participação das crianças depende da avaliação da equipe de saúde e da autorização dos responsáveis, garantindo que a experiência seja adequada às necessidades de cada paciente. Além dos pequenos, acompanhantes e profissionais também se beneficiam da presença dos cães, que despertam sorrisos, curiosidade e demonstrações de afeto em meio aos desafios da rotina hospitalar.
Com Diana e Lútche, o Projeto Caralâmpia mostra que o cuidado em saúde também pode ser fortalecido por meio de vínculos, acolhimento e experiências afetivas. Em cada visita, os cães ajudam a criar momentos de leveza para crianças e famílias, lembrando que, mesmo durante a internação, há espaço para brincar, se conectar e encontrar motivos para sorrir.


