Com a chegada do São João, o ritmo contagiante do forró invade todos os cantos — dos fones de ouvido às praças, bares e restaurantes. É quase impossível ouvir o triângulo, a zabumba e a sanfona sem deixar o corpo se embalar no tradicional “dois pra lá, dois pra cá”. Mas, para muitas pessoas, o forró vai muito além de uma celebração junina: é um movimento contínuo de cura, acolhimento e transformação.
Foi dançando que Alana Nascimento, de 37 anos, encontrou uma nova forma de se reconectar com o mundo. Ela começou a praticar forró há dois anos, a convite de uma amiga, em um momento delicado da vida. Alana convivia com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), o que tornava especialmente difícil lidar com o toque físico — algo essencial na dança a dois. Ainda assim, decidiu conversar com sua psicóloga. Para sua surpresa, a profissional não só apoiou a ideia como sugeriu que a dança integrasse seu processo terapêutico.
“No início era extremamente desconfortável. Eu ficava rígida, congelava. Era como se meu corpo dissesse ‘pare, isso é demais’. Mas o forró me forçou a continuar, a aceitar o toque, a confiar. Ele me desafia todos os dias a me relacionar melhor com o outro. Hoje, vejo a dança como um caminho de cura”, conta Alana, que trabalha como executiva de transformação digital.
O que antes era barreira, virou abraço. A ansiedade e o medo cederam espaço ao acolhimento e à conexão. Para Alana, o forró não é mais um gatilho, e sim uma ponte para relações mais leves e afetivas.
Segundo a psiquiatra Tábata Juliana Mascarenhas, a dança tem um potencial terapêutico real, especialmente em casos de traumas psicológicos.
“A dança cria uma realidade diferente daquela vivida por quem enfrenta um transtorno como o TEPT. Ao envolver corpo e mente em uma experiência positiva, é possível reduzir o estado constante de alerta e promover novos significados para sensações difíceis”, explica.
E os benefícios da dança não param por aí. O forró também tem sido aliado no enfrentamento de doenças neurodegenerativas, como o Parkinson. Kris Boesch conta que, após o diagnóstico do irmão, em 2020, a dança virou parte da rotina familiar.
“Escolhemos encarar a doença com leveza, alegria e muito amor. Dançamos, cantamos, rimos e seguimos com fé. A dança nos ajuda a manter o coração cheio de esperança”, diz Kris.
Mais do que tradição, o forró se revela um instrumento poderoso de reconexão consigo mesmo e com os outros — passo a passo, abraço a abraço.

Segundo a psiquiatra, no caso de pacientes com Parkinson, a dança oferece estímulos que mantêm o cérebro ativo. “Ela estimula atenção, memória e humor. Do ponto de vista motor, melhora a coordenação, o equilíbrio e a força muscular.”
É assim que os irmãos seguem a vida — um passo de cada vez, no compasso do forró, em busca de mais mobilidade e saúde.
As aulas que transformaram a vida de Alana, Kris e seu irmão acontecem na Escola Forró 4º Andar, no centro de Salvador. O espaço, mantido por voluntários apaixonados pela cultura nordestina, virou refúgio tanto para quem dança por prazer quanto para quem dança por saúde.
Igor Carvalho, professor e um dos fundadores do projeto, contou como o Forró 4º Andar nasceu. “Queríamos oferecer aulas acessíveis para os estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e hoje recebemos pessoas de vários lugares. Aqui, a gente cria comunidade, vínculos e afeto por meio da dança.”
Entre o som da zabumba, do triângulo e da sanfona, os encontros se multiplicam. O que era aula vira roda. O que era terapia vira festa. No abraço ritmado do forró, a aproximação é inevitável — e a cura, quase natural.
Fonte: Bnews
Foto: BNews / Danilo Garcia




