Estudos de fase 3 mostram que até 55% dos pacientes tratados com a dose mais alta do upadacitinibe recuperaram pelo menos 80% dos cabelos do couro cabeludo após seis meses.
Um medicamento utilizado no tratamento de doenças inflamatórias, como a artrite reumatoide, apresentou resultados promissores contra casos graves de alopecia areata. Em dois estudos clínicos de fase 3, o upadacitinibe levou à recuperação significativa dos cabelos de parte dos pacientes após 24 semanas de tratamento.
Os resultados foram publicados no dia 12 na revista científica JAMA Dermatology. A pesquisa foi conduzida por cientistas ligados ao Brigham and Women’s Hospital, nos Estados Unidos, com participação de especialistas de instituições de diferentes países.
Ao todo, 1.399 adultos e adolescentes participaram dos estudos, realizados em centros da América, Europa e Ásia. Todos os voluntários apresentavam alopecia areata grave, com perda de pelo menos metade dos cabelos do couro cabeludo. O grupo também incluía 118 adolescentes entre 12 e 17 anos.
Recuperação começou a aparecer a partir da oitava semana
Os participantes foram divididos em três grupos. Dois receberam diariamente upadacitinibe, nas doses de 15 mg ou 30 mg, enquanto o terceiro recebeu placebo.
As primeiras diferenças entre os grupos começaram a ser observadas por volta da oitava semana de tratamento. Ao final de 24 semanas, cerca de 45% dos pacientes que receberam 15 mg haviam recuperado pelo menos 80% da cobertura capilar do couro cabeludo.
Entre aqueles que receberam a dose de 30 mg, o resultado foi ainda mais expressivo: entre 54% e 55% alcançaram esse nível de recuperação. No grupo que recebeu placebo, apenas entre 1,5% e 3,4% dos participantes chegaram ao mesmo resultado.
Uma parcela dos pacientes apresentou recuperação completa dos cabelos. Entre os que receberam 15 mg, entre 13% e 14% recuperaram todos os fios do couro cabeludo. Já com a dose de 30 mg, o índice chegou a 22,5% em um dos estudos.
Sobrancelhas e cílios também apresentaram melhora
Os benefícios não ficaram restritos ao couro cabeludo. Os pesquisadores também observaram crescimento significativo de sobrancelhas e cílios entre os participantes.
Nos pacientes que receberam a dose mais alta do medicamento, aproximadamente 59% a 62% apresentaram recuperação importante das sobrancelhas. A melhora no crescimento dos cílios ultrapassou 61%.
Além dos resultados físicos, os pesquisadores avaliaram possíveis impactos na qualidade de vida dos pacientes. Foram observadas melhorias relacionadas aos efeitos psicológicos provocados pela alopecia. Entretanto, nem todas as análises específicas sobre ansiedade e depressão apresentaram diferenças consideradas estatisticamente significativas.
Medicamento atua sobre o sistema imunológico
A alopecia areata é uma doença autoimune em que o sistema imunológico ataca os folículos responsáveis pelo crescimento dos cabelos. A condição pode provocar pequenas áreas de queda e, em casos graves, levar à perda de grande parte ou de todos os cabelos do couro cabeludo e até dos pelos do corpo.
O upadacitinibe, comercializado como Rinvoq, pertence à classe dos inibidores de JAK. Esses medicamentos atuam bloqueando determinados sinais envolvidos na resposta do sistema imunológico e já são utilizados no tratamento de doenças inflamatórias, como a artrite reumatoide.
Efeitos colaterais foram registrados
Os efeitos adversos mais frequentes observados nos pacientes tratados com upadacitinibe incluíram infecções das vias respiratórias superiores, acne, alterações nos níveis de creatina fosfoquinase, uma enzima relacionada aos músculos, e nasofaringite.
Eventos adversos graves ocorreram em 1,6% dos pacientes que receberam 15 mg e em 2,3% daqueles tratados com 30 mg. No grupo placebo, o índice foi de 0,4%. Segundo os pesquisadores, não foram identificados novos sinais de segurança durante as primeiras 24 semanas dos estudos.
Estudos tiveram financiamento da fabricante
Apesar dos resultados, os pesquisadores destacam uma questão relacionada ao financiamento. Os estudos foram financiados pela AbbVie, empresa responsável pela fabricação do upadacitinibe.
A farmacêutica participou do desenho das pesquisas, da coleta e da análise dos dados, além da revisão do artigo científico. Vários dos autores também declararam possuir vínculos financeiros ou profissionais com a empresa. Os resultados, contudo, passaram por revisão científica e já tiveram impacto regulatório.
Uso foi aprovado na Europa
Em 29 de julho, a Comissão Europeia autorizou o uso do Rinvoq para o tratamento da alopecia areata grave em adultos e adolescentes a partir dos 12 anos. A decisão foi baseada no programa de estudos clínicos que incluiu os dois ensaios de fase 3 apresentados na pesquisa.





